Após quase três décadas de negociações, a União Europeia deu sinal verde para o acordo comercial com o Mercosul, considerado um dos mais abrangentes já firmados entre blocos econômicos. A decisão foi tomada no início de 2026, com a maioria dos países europeus votando a favor do texto, que cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. O acordo ainda passará por processos de ratificação no Parlamento Europeu e nos congressos nacionais dos países do Mercosul para entrar em vigor.
O docente da Unesp Marcelo Fernandes de Oliveira, especialista em relações internacionais do Departamento de Ciências e Políticas Econômicas do câmpus de Marília, analisa os impactos e os desdobramentos da oficialização do acordo. Para o professor, trata-se de um marco relevante tanto para o Brasil quanto para os demais países envolvidos, especialmente por encerrar um processo de negociação que se arrastava há cerca de 25 anos.
Os impactos econômicos do novo acordo serão expressivos. “Estamos falando de uma zona de livre comércio que envolve mais de 700 milhões de pessoas e, para o Brasil, o acordo abre um leque de consumo em economias de 22 trilhões de dólares, o equivalente ao PIB norte-americano ou ao PIB chinês”, diz Oliveira, destacando a oportunidade estratégica que se abre para que o Brasil amplie e diversifique seus parceiros comerciais, reduzindo a dependência de mercados específicos.
Entre os pontos centrais do acordo está a eliminação gradual de tarifas alfandegárias sobre bens e serviços. Pelo lado do Mercosul, o compromisso é zerar mais de 90% das tarifas sobre produtos europeus em até 15 anos, enquanto a União Europeia prevê eliminar 95% das tarifas sobre bens do bloco sul-americano em até 12 anos.
Para a agricultura, o acordo amplia cotas para produtos como carne bovina, frango, açúcar, arroz, mel e etanol, o que atende a uma demanda histórica do Brasil por maior presença no cenário do comércio agrícola internacional. “O acordo possibilita uma miniliberalização agrícola que garante ao Brasil mais mercado para além do chinês para os nossos produtos”, explica o docente.
No entanto, o acesso ao mercado europeu estará condicionado ao cumprimento de compromissos ambientais obrigatórios devido às cláusulas previstas no acordo. O texto também prevê a possibilidade de suspensão do pacto comercial caso haja violação ao Tratado de Paris, o que impõe ao Brasil e aos demais países do Mercosul exigências ambientais mais rigorosas.
Além do setor agrícola, o acordo também deve impactar a indústria brasileira. O docente ressalta os benefícios que a redução tarifária pode trazer especialmente setores como a indústria automobilística, o de máquinas e equipamentos, autopeças, produtos químicos, aeronaves e equipamentos de transporte. Por outro lado, a eliminação das tarifas permitirá que os países da América do Sul, especialmente o Brasil, ampliem a aquisição de máquinas e equipamentos estratégicos, contribuindo diretamente para a modernização da economia.
Do ponto de vista europeu, o acordo representa a retomada e a ampliação do acesso ao mercado sul-americano, sobretudo para produtos industriais. Segundo Oliveira, a redução tarifária tende a beneficiar setores que perderam competitividade nos últimos anos, com destaque para a indústria automotiva.
“O setor automobilístico europeu voltará a ter competitividade aqui, o que gera um grande problema comercial entre Brasil e China, visto que os chineses irão demandar proteção a esses novos investimentos que virão dos países da União Europeia”, explica.
O docente destaca ainda a dimensão geopolítica do acordo entre Mercosul e União Europeia e afirma que a aproximação entre os blocos fortalece o comércio internacional em um contexto global de disputas, ampliando a autonomia estratégica das duas regiões ao reduzir a dependência das grandes potências diante de um cenário geopolítico que tende a se tornar mais instável nos próximos anos.
“A União Europeia e o Mercosul criam uma zona de paz geopolítica em prol do comércio internacional muito forte, vis-à-vis as tendências nacionalistas norte-americanas dos últimos anos e a própria perspectiva autocrata chinesa”, diz.
Fonte Jornal da Unesp
Texto Isis Bianco